Agenda Solaire

28 outubro 2026

Entre o alcance e a consciência: comunicação estratégica na era dos algoritmos e da inteligência artificial

Como o marketing digital, a economia da atenção e as novas tecnologias estão transformando a comunicação, a democracia e a responsabilidade de quem produz informação.




Vivemos um período em que a capacidade de comunicar nunca foi tão ampla — e, ao mesmo tempo, tão desafiadora. Uma mensagem publicada em poucos segundos pode atravessar fronteiras, mobilizar milhares de pessoas, fortalecer uma marca, estimular uma causa social ou influenciar a percepção pública sobre um acontecimento. O mesmo ambiente, porém, permite que informações falsas circulem rapidamente, discursos sejam manipulados e conteúdos artificiais sejam apresentados como registros legítimos da realidade.

Nas redes sociais, criadores de conteúdo, influenciadores digitais, empresas, instituições e movimentos sociais disputam espaço em um ambiente orientado por algoritmos, interesses comerciais e comportamentos humanos. Nesse contexto, seguidores, curtidas, compartilhamentos, visualizações e alcance tornaram-se indicadores recorrentes de desempenho.

Mas uma pergunta merece atenção: quando uma mensagem alcança milhares ou milhões de pessoas, isso significa, necessariamente, que a comunicação cumpriu seu papel?

A resposta exige uma reflexão que ultrapassa as métricas tradicionais do marketing digital. Comunicar não é apenas distribuir conteúdo. É participar da construção de significados, influenciar percepções, estabelecer relações e, em determinadas circunstâncias, contribuir para decisões que afetam indivíduos e sociedades.

Por isso, discutir comunicação estratégica na atualidade exige compreender não apenas as ferramentas disponíveis, mas também os mecanismos que determinam a circulação das mensagens, os interesses envolvidos e as consequências de seu uso.


1. A comunicação de massa mudou de forma, mas não perdeu seu poder


Durante décadas, a comunicação de massa esteve associada principalmente ao rádio, à televisão, aos jornais e às grandes estruturas de produção e distribuição de informação. A emissão era predominantemente centralizada: poucos veículos alcançavam públicos numerosos, enquanto a audiência tinha possibilidades mais limitadas de responder e participar da produção de conteúdo.

A popularização da internet e das redes sociais alterou profundamente essa dinâmica. Hoje, um cidadão pode registrar um acontecimento, denunciar uma injustiça, organizar uma mobilização ou questionar uma instituição sem depender exclusivamente dos meios tradicionais de comunicação.

Essa transformação ampliou as possibilidades de participação pública. Movimentos sociais, campanhas de solidariedade, manifestações em defesa de direitos e iniciativas de fiscalização cidadã encontram nas plataformas digitais instrumentos para mobilizar pessoas e dar visibilidade a questões que poderiam permanecer à margem do debate público.

Entretanto, a descentralização da produção de conteúdo não significa que o poder de distribuição tenha sido igualmente descentralizado.

As plataformas digitais controlam infraestruturas, sistemas de recomendação, formatos de publicidade e mecanismos de visibilidade. Embora milhões de pessoas possam publicar, nem todas as mensagens recebem a mesma exposição. A distribuição depende de diferentes fatores, entre eles as escolhas dos usuários, as características do conteúdo, as regras de cada plataforma e os objetivos de seus sistemas de recomendação.

Assim, a comunicação contemporânea apresenta um paradoxo: nunca foi tão fácil publicar, mas continua sendo complexo conquistar visibilidade consistente.

A questão central deixa de ser apenas quem pode falar e passa a incluir quem consegue ser ouvido, em quais condições e por meio de quais mecanismos.


2. Algoritmos e a economia da atenção: o que realmente significa engajar?


No marketing digital, o engajamento costuma ser associado às interações que um conteúdo recebe: curtidas, comentários, compartilhamentos, salvamentos, respostas e outras ações mensuráveis. O alcance, por sua vez, indica quantas contas foram expostas ao conteúdo, conforme a definição utilizada por cada plataforma.

Essas métricas são importantes. Ajudam a avaliar campanhas, identificar interesses, compreender comportamentos e orientar decisões de comunicação. O problema começa quando deixam de ser instrumentos de análise e passam a representar, isoladamente, o próprio conceito de sucesso.

Um conteúdo pode alcançar muitas pessoas sem produzir compreensão. Pode gerar milhares de comentários motivados por indignação, mas não construir confiança. Pode viralizar por causa de uma informação equivocada e, ainda assim, apresentar números aparentemente excelentes em um relatório de desempenho.

Engajamento não é sinônimo de credibilidade. Alcance não é sinônimo de influência positiva. Viralização não é sinônimo de valor.

Os algoritmos de recomendação participam dessa dinâmica ao selecionar, ordenar e sugerir conteúdos para cada usuário. Embora os critérios variem entre plataformas e sejam frequentemente alterados, sistemas desse tipo podem considerar sinais relacionados às interações, aos interesses inferidos, à relevância prevista e ao histórico de consumo.

O resultado é uma experiência personalizada, capaz de facilitar a descoberta de informações e aproximar pessoas de conteúdos relevantes. Entretanto, a mesma personalização pode limitar a diversidade de perspectivas quando as recomendações reforçam continuamente interesses e convicções já existentes.

É importante não simplificar essa relação: algoritmos não produzem, por si só, um único comportamento social, e conteúdos controversos não são necessariamente privilegiados em todas as plataformas ou circunstâncias. O efeito depende da arquitetura do sistema, dos incentivos comerciais, das decisões de moderação e do comportamento dos próprios usuários.

Ainda assim, existe uma tensão estrutural. Quando o modelo de negócio depende da atenção, manter as pessoas consumindo conteúdo torna-se um objetivo econômico relevante. Nesse cenário, materiais emocionalmente intensos podem conquistar visibilidade, especialmente quando estimulam reações e compartilhamentos.

A indignação, o medo, a identificação com um grupo e a sensação de pertencimento podem influenciar o comportamento digital. Isso não significa que toda comunicação emocional seja manipuladora, mas demonstra por que a estratégia de conteúdo precisa considerar a diferença entre despertar interesse e explorar vulnerabilidades.

Para empresas e profissionais de marketing, a consequência é direta: perseguir apenas o crescimento das métricas pode produzir resultados de curto prazo e comprometer a reputação no longo prazo.

Uma estratégia consistente precisa avaliar não apenas quantas pessoas foram alcançadas, mas também se o conteúdo foi compreendido, se gerou interações relevantes, se contribuiu para os objetivos da organização e se fortaleceu a confiança do público.


3. Marketing digital: quando a persuasão se aproxima da manipulação


Persuadir faz parte da comunicação. Marcas apresentam diferenciais, profissionais defendem propostas, instituições explicam suas decisões e campanhas procuram mobilizar comportamentos. Não existe, portanto, oposição automática entre persuasão e ética.

A diferença está nos métodos empregados e no respeito à autonomia de quem recebe a mensagem.

Uma comunicação persuasiva apresenta argumentos, contextualiza benefícios e permite que o público avalie uma proposta. A manipulação, por outro lado, pode recorrer à omissão deliberada de informações relevantes, à exploração de medos, à fabricação de urgência, à distorção de fatos ou à criação de falsas impressões para conduzir decisões.

Essa distinção também se aplica à construção de narrativas.

Um mesmo acontecimento pode ser descrito por diferentes perspectivas, e selecionar informações faz parte de qualquer processo editorial. Entretanto, quando a seleção é utilizada para esconder elementos essenciais, descontextualizar declarações ou atribuir intenções sem evidências, a comunicação pode deixar de esclarecer para passar a induzir interpretações enganosas.

No ambiente digital, esse processo ganha escala por meio da segmentação de públicos, dos testes de anúncios e da personalização de mensagens. Uma campanha pode apresentar versões diferentes de um argumento para públicos distintos, adaptando linguagem, imagens e benefícios conforme seus interesses.

Essas práticas podem ser legítimas e úteis. O risco aparece quando a personalização deixa de melhorar a relevância da mensagem e passa a explorar fragilidades individuais, ocultar informações importantes ou dificultar o escrutínio público.

No marketing comercial, isso pode comprometer a relação entre marca e consumidor. Na comunicação política, pode fragmentar o debate público: grupos diferentes recebem mensagens distintas, nem sempre compatíveis entre si, e têm dificuldade para compreender quais compromissos estão sendo efetivamente apresentados.

A pergunta estratégica, portanto, não deveria ser apenas “como convencer mais pessoas?”, mas também: “estamos oferecendo informações suficientes para que essas pessoas possam formar sua própria opinião?”

Essa mudança de perspectiva não elimina a persuasão. Ela estabelece limites éticos para seu exercício.


4. Redes sociais, eleições e a disputa pela percepção da realidade


A influência das plataformas digitais nos processos eleitorais precisa ser analisada com rigor, evitando tanto a ideia de que as redes determinam sozinhas os resultados quanto a conclusão de que são ambientes neutros, sem consequências políticas.

As eleições envolvem múltiplos fatores: condições econômicas, identidade social, confiança nas instituições, cobertura jornalística, atuação de campanhas, experiências pessoais e debates sobre políticas públicas. As plataformas constituem uma parte desse ecossistema, oferecendo canais de divulgação, mobilização, publicidade, debate e circulação de informações.

Esses recursos podem ampliar a participação democrática. Candidatos e organizações conseguem apresentar propostas, cidadãos podem fiscalizar declarações públicas e grupos com menor acesso aos meios tradicionais encontram novas formas de expressão.

Ao mesmo tempo, o ambiente digital pode ser utilizado para disseminar alegações falsas, retirar declarações de contexto, simular apoio popular ou intensificar conflitos entre grupos.

Um dos mecanismos mais conhecidos de amplificação artificial envolve fazendas de bots e redes coordenadas de contas. Dependendo de sua finalidade e configuração, essas estruturas podem automatizar publicações, replicar mensagens, interagir com conteúdos ou aparentar uma mobilização maior do que aquela efetivamente existente.

Nem toda conta automatizada é ilegítima, assim como nem toda mobilização numerosa é artificial. O problema está no uso de mecanismos coordenados para enganar o público sobre a origem, a autenticidade ou a dimensão do apoio a uma ideia.

Quando milhares de interações artificiais fazem uma mensagem parecer espontaneamente popular, o objetivo pode ser influenciar a percepção de consenso. Pessoas que observam esse movimento podem concluir que determinada posição representa uma maioria social, mesmo sem evidências suficientes para sustentar essa interpretação.

Esse fenômeno afeta a qualidade do debate público porque a percepção de popularidade pode ser confundida com a validade de um argumento.

Outro elemento importante é a circulação de mensagens em grupos e canais de transmissão do WhatsApp. Esses ambientes facilitam a comunicação direta entre familiares, amigos, comunidades, organizações e grupos profissionais. A confiança estabelecida entre os participantes pode favorecer a disseminação de informações úteis e iniciativas legítimas de mobilização.

Entretanto, a mesma confiança pode tornar mensagens enganosas mais persuasivas. Uma informação recebida de alguém próximo pode ser aceita sem a verificação que seria aplicada a uma publicação de origem desconhecida.

A criptografia de ponta a ponta utilizada em conversas pessoais do WhatsApp também limita a visibilidade externa sobre o conteúdo dessas comunicações. Isso não significa que toda mensagem seja impossível de investigar ou que todos os canais funcionem da mesma maneira, mas dificulta a observação pública de determinados fluxos de circulação.

Por isso, o enfrentamento da desinformação não depende exclusivamente da remoção de publicações. Exige educação midiática, transparência, verificação de fontes, responsabilidade de quem compartilha e mecanismos proporcionais para identificar comportamentos coordenados e abusivos.

O desafio democrático consiste em preservar a liberdade de expressão e a participação política, ao mesmo tempo que se reduz o espaço para fraudes informacionais, intimidação e manipulação deliberada.


5. Fake news e desinformação: a velocidade não substitui a verdade


A expressão fake news tornou-se popular para descrever conteúdos falsos, mas seu uso indiscriminado pode dificultar a compreensão do problema. Uma notícia incorreta, um boato, uma sátira, um erro jornalístico e uma operação deliberada de desinformação não são necessariamente a mesma coisa.

Para uma análise estratégica, é útil distinguir a informação falsa compartilhada sem intenção comprovada de enganar daquela produzida ou distribuída deliberadamente para induzir o público ao erro.

Essa distinção importa porque as respostas adequadas também variam. Um erro pode exigir correção; um boato pode demandar esclarecimento e contextualização; uma campanha coordenada de manipulação pode exigir investigação sobre sua origem, seus financiadores e seus mecanismos de distribuição.

A desinformação também não se limita à invenção de fatos. Ela pode surgir da combinação de informações verdadeiras com conclusões falsas, da utilização de imagens antigas como se fossem atuais, da omissão de contexto ou da apresentação de uma opinião como se fosse um dado comprovado.

O problema se intensifica quando o conteúdo é emocionalmente atraente e oferece uma explicação simples para uma situação complexa. Em vez de convidar à investigação, a mensagem entrega um culpado, uma certeza e uma interpretação pronta.

É nesse ponto que a comunicação não violenta pode contribuir para a qualidade do debate. Desenvolvida a partir do trabalho de Marshall Rosenberg, essa abordagem valoriza a observação sem julgamentos precipitados, o reconhecimento dos sentimentos e das necessidades envolvidas e a formulação de pedidos claros.

Aplicada à comunicação pública, ela não significa evitar divergências ou relativizar fatos. Significa questionar argumentos sem desumanizar interlocutores, corrigir informações sem recorrer à humilhação e reconhecer incertezas sem abandonar a responsabilidade de verificar evidências.

Uma comunicação responsável não precisa ser passiva. Pode ser firme ao contestar uma informação falsa, desde que diferencie a crítica ao conteúdo de ataques pessoais contra quem o compartilha.

Antes de reproduzir uma mensagem, algumas perguntas simples podem reduzir a circulação de informações equivocadas:

  • Qual é a fonte original e ela pode ser identificada?

  • A data e o contexto correspondem ao acontecimento descrito?

  • Existem outras fontes confiáveis que confirmam a informação?

  • O conteúdo apresenta evidências verificáveis ou depende principalmente de medo, indignação e urgência?

  • A mensagem procura informar ou pressionar o leitor a compartilhar antes de verificar?

Essas perguntas não eliminam o risco de erro, mas ajudam a substituir o impulso de compartilhar pela prática de avaliar.


6. Inteligência artificial generativa: a industrialização da produção de conteúdo


A evolução da inteligência artificial generativa introduziu uma nova etapa na produção e distribuição de informação. Sistemas capazes de gerar textos, imagens, vozes e vídeos permitem criar materiais em grande escala, adaptar mensagens para diferentes públicos, traduzir conteúdos e automatizar tarefas que antes exigiam mais tempo e recursos.

No marketing, essas ferramentas podem aumentar a produtividade, apoiar pesquisas, acelerar a criação de campanhas, facilitar testes de linguagem e ampliar o acesso de pequenos negócios a recursos de produção.

Entretanto, a mesma capacidade de geração também reduz o custo de produzir conteúdo enganoso em volume. Textos convincentes podem ser criados em segundos; vozes podem ser sintetizadas; rostos e cenas podem ser simulados; vídeos podem apresentar pessoas aparentemente reais pronunciando declarações que nunca fizeram.

Os chamados deepfakes são um exemplo relevante desse cenário. Por meio de técnicas de inteligência artificial, conteúdos audiovisuais podem ser manipulados ou gerados para representar acontecimentos inexistentes ou atribuir falas falsas a pessoas reais.

É importante observar que a manipulação audiovisual não surgiu com a inteligência artificial. Montagens, fotografias alteradas e gravações fora de contexto já existiam. A mudança está na combinação entre qualidade crescente, velocidade de produção, redução de custos e facilidade de distribuição.

Isso modifica as condições em que o público avalia a autenticidade de um registro. Se antes uma gravação de voz ou um vídeo eram frequentemente tratados como evidências intuitivas de que algo aconteceu, hoje esses elementos exigem maior atenção à origem, ao contexto e à confirmação independente.

Também é necessário evitar o extremo oposto: concluir que todo conteúdo pode ser falso e, por isso, nenhuma evidência merece confiança. Essa postura favoreceria a desconfiança generalizada e dificultaria a responsabilização por acontecimentos reais.

O caminho mais consistente é desenvolver processos de verificação, transparência e revisão humana, especialmente quando o conteúdo envolve reputação, saúde, finanças, segurança ou interesse público.

Para profissionais de comunicação, utilizar IA não elimina a responsabilidade editorial. A ferramenta pode auxiliar na elaboração de um texto, mas não assume automaticamente a obrigação de verificar os fatos, respeitar direitos autorais, proteger dados pessoais ou avaliar os possíveis danos de uma publicação.

A questão fundamental não é simplesmente se o conteúdo foi criado por uma pessoa ou por uma máquina. É se ele é identificável quanto à sua origem quando necessário, verificável em suas afirmações e responsável em seus efeitos.


7. Quem controla a tecnologia e quais interesses orientam sua utilização?


Uma análise estratégica da inteligência artificial e das plataformas digitais precisa considerar a estrutura econômica em que essas tecnologias operam.

Empresas de tecnologia desenvolvem produtos, disputam mercados, atraem investimentos e buscam modelos sustentáveis de receita. Dependendo do serviço, seus interesses podem envolver publicidade, assinaturas, licenciamento, venda de infraestrutura computacional, serviços corporativos ou a expansão de seus ecossistemas.

Governos também possuem interesses legítimos e conflitantes relacionados à inovação, à segurança, à competitividade econômica, à soberania tecnológica e à regulação do espaço digital.

Esses interesses não são necessariamente incompatíveis com o interesse público. O desenvolvimento tecnológico pode ampliar oportunidades, melhorar serviços e estimular a inovação. Entretanto, a concentração de infraestrutura, dados, capacidade computacional e poder de distribuição cria assimetrias que precisam ser compreendidas.

Quem define as regras de uma plataforma decide, em alguma medida, como a informação será organizada naquele ambiente. Quem controla um sistema de recomendação influencia as condições de visibilidade dos conteúdos. Quem oferece uma ferramenta de IA estabelece políticas de acesso, limites de utilização e condições para o processamento de informações.

Isso não significa que toda empresa tecnológica tenha uma orientação ideológica única, nem que decisões de produto sejam sempre determinadas por interesses políticos. Organizações são complexas, seus mercados variam e suas decisões podem resultar de incentivos comerciais, exigências legais, escolhas técnicas e disputas internas.

Da mesma forma, o ambiente regulatório e político de cada país pode influenciar as condições de operação dessas tecnologias. Leis, decisões judiciais, políticas de moderação, exigências de transparência e relações entre governos e empresas podem produzir diferenças relevantes entre mercados.

Por isso, avaliar uma tecnologia exige mais do que observar sua capacidade técnica. É necessário perguntar quem a desenvolve, como é financiada, quais dados utiliza, quais regras estabelece, quem se beneficia de sua operação e quais mecanismos existem para contestar decisões ou reparar danos.

A transparência, nesse contexto, não representa apenas uma exigência institucional. Ela é também um componente de confiança.

Para empresas que utilizam IA na comunicação, uma política interna de uso responsável pode definir critérios de revisão humana, proteção de informações confidenciais, validação de dados, identificação de conteúdos sintéticos e limites para a automação de interações.

O diferencial competitivo do futuro não estará necessariamente em produzir mais conteúdo com menos esforço. Poderá estar na capacidade de combinar eficiência tecnológica com consistência, autenticidade e responsabilidade.


8. LGPD: dados pessoais não são apenas um recurso de marketing


O marketing digital depende, em diferentes graus, da análise de dados. Informações sobre navegação, preferências, interações, compras e respostas a campanhas podem ajudar a compreender públicos e tornar a comunicação mais relevante.

Entretanto, a coleta e o uso dessas informações envolvem direitos e responsabilidades.

No Brasil, a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD), Lei nº 13.709/2018, estabelece regras para o tratamento de dados pessoais e busca proteger direitos fundamentais relacionados à liberdade, à privacidade e ao livre desenvolvimento da personalidade.

A legislação não proíbe o marketing baseado em dados, mas exige que o tratamento tenha fundamento jurídico adequado e respeite princípios como finalidade, adequação, necessidade, transparência, segurança, prevenção e responsabilização.

Isso significa que uma empresa precisa avaliar quais informações realmente necessita, para quais finalidades serão utilizadas, como serão protegidas e quais direitos podem ser exercidos pelos titulares.

A atenção deve ser ainda maior quando o tratamento envolve dados pessoais sensíveis. A LGPD inclui expressamente informações sobre opinião política, convicção religiosa, saúde e outros aspectos definidos em seu artigo 5º. O tratamento desses dados segue regras específicas, e não basta invocar genericamente um interesse comercial para justificar sua utilização.

Essa discussão torna-se particularmente relevante quando a segmentação publicitária, os sistemas de recomendação e a inteligência artificial são empregados para inferir características pessoais ou construir perfis comportamentais.

No campo político, a possibilidade de direcionar mensagens a grupos com base em características e comportamentos inferidos levanta questões sobre privacidade, transparência e autonomia. O fato de uma tecnologia permitir determinado tipo de segmentação não significa que todo uso seja juridicamente permitido ou eticamente justificável.

Para os profissionais de marketing, a LGPD deve ser incorporada ao planejamento, e não tratada apenas como uma exigência burocrática. A governança de dados precisa fazer parte da estratégia desde a concepção da campanha, considerando a base legal, a minimização da coleta, a segurança, os contratos com fornecedores e os mecanismos de atendimento aos titulares.

A confiança também possui valor econômico. Uma organização que explica suas práticas de tratamento de dados, protege informações e respeita escolhas individuais tem melhores condições de construir relacionamentos duradouros do que uma organização que utiliza a tecnologia sem considerar os direitos das pessoas.

Em última análise, dados representam oportunidades de compreender comportamentos, mas continuam relacionados a pessoas, direitos e responsabilidades.


9. Indústria 5.0: tecnologia a serviço das pessoas


A transformação digital é frequentemente apresentada a partir de indicadores de produtividade, automação, escala e redução de custos. Esses elementos são relevantes, mas não esgotam as possibilidades de avaliar o desenvolvimento tecnológico.

O conceito de Indústria 5.0, discutido pela Comissão Europeia, propõe complementar a perspectiva da Indústria 4.0 ao colocar no centro da reflexão três dimensões: uma indústria centrada nas pessoas, sustentável e resiliente.

Essa abordagem oferece uma referência útil para pensar também a comunicação e o marketing, embora não signifique que exista um modelo universal e acabado de comunicação denominado Indústria 5.0.

Se a tecnologia amplia a capacidade de produzir e distribuir informação, a dimensão humana exige perguntar como essa capacidade afeta a autonomia, o bem-estar, as relações de trabalho e a qualidade do debate público.

Se a sustentabilidade orienta decisões de longo prazo, torna-se pertinente avaliar os custos sociais de ambientes digitais que incentivam produção incessante, consumo acelerado e disputas permanentes por atenção.

Se a resiliência envolve a capacidade de responder a mudanças e perturbações, organizações e sociedades precisam desenvolver competências para reconhecer fraudes, corrigir erros, proteger dados e preservar a confiança em períodos de instabilidade informacional.

Para o marketing, essa perspectiva representa uma oportunidade de amadurecimento. A automação pode tornar processos mais eficientes, enquanto a análise humana continua essencial para compreender contexto, linguagem, valores, contradições e consequências.

A tecnologia não precisa ser tratada como adversária das pessoas, assim como o trabalho humano não precisa ser compreendido como obstáculo à inovação. A questão é construir formas de colaboração em que os ganhos de produtividade não sejam obtidos à custa da transparência, da dignidade ou da responsabilidade.

Nesse sentido, uma comunicação orientada pela perspectiva humana não abandona resultados. Ela amplia a definição de resultado, incorporando qualidade, confiança, sustentabilidade e impacto.


10. Uma nova métrica para o sucesso da comunicação estratégica


Se alcance e engajamento não são suficientes para avaliar o valor de uma comunicação, quais critérios podem complementar os indicadores tradicionais?

A resposta depende dos objetivos de cada projeto, mas algumas dimensões podem ajudar a construir uma avaliação mais abrangente.

Relevância: o conteúdo responde a uma necessidade real do público ou apenas procura capturar sua atenção?

Credibilidade: as afirmações podem ser verificadas? As fontes são identificáveis? As limitações e incertezas foram apresentadas de maneira adequada?

Qualidade da interação: os comentários e compartilhamentos demonstram interesse genuíno, esclarecimento e participação ou são predominantemente resultado de conflito e incompreensão?

Confiança: a comunicação fortalece a reputação e a relação com o público ou compromete a credibilidade da organização?

Responsabilidade: a estratégia respeita a privacidade, os direitos autorais, a diversidade de públicos e as normas aplicáveis?

Impacto: os resultados contribuem para o objetivo definido, seja ele educar, informar, gerar negócios, fortalecer relacionamentos ou estimular uma participação cidadã consciente?

Essas dimensões não substituem indicadores quantitativos. Elas ajudam a interpretá-los.

Uma campanha comercial, por exemplo, pode avaliar conversões, custo de aquisição e retenção de clientes, além de alcance e engajamento. Uma iniciativa de educação pública pode observar compreensão, qualidade das fontes consultadas e capacidade de reconhecer informações enganosas. Uma organização institucional pode acompanhar a confiança, a consistência de suas mensagens e a qualidade do relacionamento com seus públicos.

O princípio é simples: medir aquilo que realmente importa para o objetivo da comunicação, em vez de considerar que tudo o que pode ser medido representa necessariamente valor.

A estratégia também precisa reconhecer que nem todo conteúdo deve viralizar. Uma mensagem técnica destinada a um público específico pode cumprir seu papel mesmo com alcance limitado. Uma informação de utilidade pública pode ser valiosa sem provocar milhares de comentários. E uma campanha que cresce rapidamente, mas compromete a reputação de uma organização, pode apresentar um desempenho aparente que não se sustenta no longo prazo.

A maturidade profissional está em compreender essas diferenças e estabelecer critérios de avaliação coerentes com os objetivos e com as responsabilidades envolvidas.


11. Comunicação não violenta como competência estratégica


Em ambientes digitais marcados pela velocidade, pela exposição pública e pela polarização, a forma de comunicar pode influenciar tanto a compreensão da mensagem quanto a disposição das pessoas para dialogar.

A comunicação não violenta oferece uma referência para lidar com divergências sem transformar toda discordância em um conflito pessoal. Isso não significa eliminar críticas, evitar posicionamentos ou tratar afirmações verdadeiras e falsas como equivalentes.

Significa procurar descrever fatos com precisão, distinguir observações de interpretações, reconhecer os impactos das palavras e formular argumentos que não dependam da desqualificação do interlocutor.

Para marcas e instituições, essa postura pode contribuir para respostas mais consistentes em situações de crise. Em vez de reagir impulsivamente a uma crítica, a organização pode identificar o problema apresentado, verificar os fatos, reconhecer eventuais falhas e explicar quais medidas serão adotadas.

Para criadores de conteúdo, significa compreender que audiência não é apenas uma coleção de números, mas um conjunto de pessoas com experiências, necessidades e responsabilidades próprias.

Para profissionais de marketing, significa reconhecer que a atenção conquistada por meio da humilhação, do medo ou da provocação pode gerar visibilidade imediata, mas também produzir custos reputacionais e deteriorar relações.

A comunicação não violenta não é uma garantia automática de engajamento, nem substitui o planejamento, a apuração ou a competência técnica. Sua contribuição está em estabelecer uma postura de respeito e responsabilidade que pode coexistir com a firmeza, a criatividade e a defesa de ideias.

Em um ambiente em que a tecnologia permite acelerar a produção e a distribuição de mensagens, a capacidade de comunicar com clareza, precisão e respeito torna-se um diferencial profissional.


Conclusão: mais do que disputar atenção, precisamos construir confiança


A comunicação está passando por uma transformação que envolve tecnologia, economia, cultura, política e comportamento humano. As redes sociais ampliaram a participação pública e abriram oportunidades para empresas, profissionais e cidadãos. Os algoritmos facilitaram a personalização e a descoberta de conteúdos. A inteligência artificial tornou a produção mais acessível e acelerou processos criativos.

Esses avanços, entretanto, não eliminam a necessidade de reflexão crítica. Ao contrário, ampliam a responsabilidade de quem desenvolve, distribui, utiliza e compartilha informações.

A desinformação, a manipulação de discursos, a amplificação artificial de mensagens e o uso inadequado de dados pessoais demonstram que a eficiência tecnológica não garante, por si só, qualidade informacional ou benefício coletivo.

Por isso, o desafio contemporâneo não consiste em rejeitar as ferramentas digitais, mas em compreender seus mecanismos, reconhecer seus limites e estabelecer critérios responsáveis para sua utilização.

Para o profissional de comunicação e marketing, essa mudança exige ampliar o olhar. Estratégia não é apenas identificar o melhor canal, encontrar o formato mais atrativo ou descobrir como aumentar o alcance de uma publicação. É compreender o contexto, definir objetivos, conhecer o público, verificar informações, proteger dados e avaliar as consequências das escolhas realizadas.

Na perspectiva da Indústria 5.0, a tecnologia pode ser entendida como instrumento para ampliar capacidades humanas, desde que sua utilização considere também a sustentabilidade, a resiliência e o interesse coletivo.

Talvez a principal mudança de mentalidade esteja em abandonar a ideia de que toda atenção conquistada representa sucesso. Em seu lugar, podemos construir uma visão mais consistente, na qual visibilidade, relevância, credibilidade e responsabilidade sejam dimensões complementares da comunicação estratégica.

Afinal, uma mensagem pode conquistar milhares de visualizações e desaparecer no fluxo interminável das redes. Uma relação de confiança, por outro lado, pode permanecer mesmo quando a publicação deixa de circular.

Em uma sociedade que disputa atenção a cada segundo, comunicar estrategicamente é saber conquistar visibilidade sem abrir mão da verdade, utilizar tecnologia sem desconsiderar as pessoas e construir influência sem comprometer a liberdade de pensar.

Esse talvez seja um dos desafios mais importantes para os profissionais de comunicação e marketing nesta nova etapa da transformação industrial: não apenas aprender a operar as ferramentas do futuro, mas participar conscientemente da definição dos valores que orientarão seu uso.


Referências para aprofundamento

  1. Comissão Europeia — Indústria 5.0. Referência sobre a abordagem centrada nas pessoas, sustentabilidade e resiliência.
    https://research-and-innovation.ec.europa.eu/research-area/industrial-research-and-innovation/industry-50_en

  2. OCDE — Facts not Fakes: Tackling Disinformation, Strengthening Information Integrity (2024). Estudo sobre integridade da informação, transparência e amplificação artificial de conteúdos.
    https://www.oecd.org/en/publications/facts-not-fakes-tackling-disinformation-and-strengthening-information-integrity_d909ff7a-en.html

  3. UNESCO — materiais sobre integridade da informação e inteligência artificial. Discussões sobre desinformação, conteúdos sintéticos e riscos para processos eleitorais.
    https://www.unesco.org/

  4. Brasil — Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (Lei nº 13.709/2018). Texto legal sobre o tratamento de dados pessoais e a proteção de direitos fundamentais.
    https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2018/lei/l13709.htm

  5. Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD). Orientações sobre dados pessoais, dados sensíveis e aplicação da LGPD.
    https://www.gov.br/anpd/

  6. União Europeia — Regulamento dos Serviços Digitais (Digital Services Act). Referência regulatória sobre transparência de sistemas de recomendação e riscos sistêmicos das grandes plataformas.
    https://eur-lex.europa.eu/eli/reg/2022/2065/oj

  7. Comissão Europeia — Lei de Inteligência Artificial (AI Act). Informações sobre obrigações de transparência aplicáveis a determinados sistemas e conteúdos gerados ou manipulados por IA.
    https://digital-strategy.ec.europa.eu/en/policies/regulatory-framework-ai


26 outubro 2026

Eleições 2026: recorde de votação, democracia e os desafios da representação política no Brasil

Reeleito com 64,2 milhões de votos, Lula estabelece a maior votação absoluta da história das eleições presidenciais brasileiras. O resultado também evidencia a competitividade da disputa, a divisão do eleitorado e o papel das instituições na garantia do processo democrático.




O segundo turno das eleições presidenciais de 2026 encerrou uma das disputas mais competitivas da história eleitoral recente do Brasil. Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito presidente da República com 64.256.232 votos, equivalentes a 51,79% dos votos válidos, enquanto Flávio Bolsonaro (PL) recebeu 59.826.041 votos, correspondentes a 48,21%. A diferença foi de 4.430.191 votos, segundo a totalização oficial do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Além de definir o próximo mandato presidencial, o resultado estabeleceu um novo marco estatístico: Lula superou a própria votação de 2022 e passou a deter o maior número absoluto de votos já recebido por um candidato à Presidência da República no Brasil. A marca anterior era de 60.345.999 votos, obtidos no segundo turno daquele ano.

O resultado de 2026, portanto, amplia o recorde anterior em 3.910.233 votos. A informação acrescenta uma dimensão histórica à análise da eleição, mas também exige uma interpretação cuidadosa sobre o significado dos números para a democracia brasileira.


Um recorde histórico em números absolutos

O levantamento histórico das votações presidenciais mostra a concentração dos maiores totais absolutos de votos nas eleições mais recentes, em parte porque o eleitorado brasileiro cresceu ao longo das décadas.

Considerando os resultados apresentados, o ranking das cinco maiores votações presidenciais é o seguinte:


Fonte: resultados eleitorais divulgados pelo TSE e levantamento histórico das votações presidenciais. Consulte também o portal de Estatísticas Eleitorais do TSE.


O levantamento demonstra que Lula ocupa três posições entre suas próprias votações de 2006, 2022 e 2026, considerando os números absolutos apresentados. 

Entretanto, é importante distinguir maior número absoluto de votos de maior percentual de apoio eleitoral. O primeiro indicador contabiliza a quantidade de votos recebidos; o segundo considera a proporção desses votos em relação ao total de votos válidos.

Como o eleitorado brasileiro se expandiu ao longo do tempo, uma votação numericamente maior não significa necessariamente que o candidato tenha obtido a maior proporção histórica de apoio. Para realizar essa comparação, seria necessário examinar os percentuais de todos os pleitos sob critérios equivalentes.

O recorde de 2026 é, portanto, um dado histórico objetivo, mas seu significado político deve ser analisado em conjunto com os demais indicadores eleitorais.


Uma vitória por margem estreita e uma oposição expressiva


A reeleição de Lula ocorreu em uma disputa na qual os dois candidatos receberam, juntos, mais de 124 milhões de votos válidos.

O resultado permite afirmar que Lula recebeu a maioria dos votos válidos e foi reeleito conforme a regra eleitoral aplicável ao segundo turno. Ao mesmo tempo, a votação de Flávio evidencia que uma parcela numericamente significativa do eleitorado optou por um projeto político diferente.

Esses dados não devem ser interpretados como uma divisão perfeitamente uniforme da sociedade entre dois grupos. Os votos expressam escolhas individuais influenciadas por diferentes fatores, como avaliação do governo, condições econômicas, propostas, identificação partidária e expectativas em relação ao futuro do país.

A votação agregada revela a distribuição dos votos, mas não permite determinar, isoladamente, as motivações de cada eleitor.


Da liderança no primeiro turno à definição no segundo


A trajetória da eleição de 2026 também apresenta um elemento relevante para a análise política. No primeiro turno, Flávio Bolsonaro obteve 56.104.503 votos, correspondentes a 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula recebeu 53.879.538 votos, ou 45,16%.

No segundo turno, o resultado foi diferente: Lula alcançou 64.256.232 votos, e Flávio Bolsonaro terminou com 59.826.041.

A comparação demonstra que Lula ampliou sua votação nominal entre os dois turnos, enquanto Flávio também terminou a eleição com um total de votos superior ao registrado na primeira rodada.

A mudança na ordem de classificação entre os turnos evidencia uma característica fundamental do sistema eleitoral brasileiro: o primeiro turno seleciona as duas candidaturas mais votadas, enquanto o segundo concentra a decisão entre elas.

Nesse intervalo, os eleitores podem rever suas escolhas, optar por uma candidatura diferente, manter sua preferência ou não comparecer às urnas. Os números finais demonstram o resultado dessas escolhas em conjunto, mas não identificam individualmente como cada eleitor se comportou entre os turnos.


Participação eleitoral e representação democrática


O balanço divulgado pelo TSE registrou 158.745.502 eleitores aptos. No segundo turno, 128.236.074 compareceram às urnas, enquanto 30.509.005 se abstiveram, correspondendo a aproximadamente 19,22% do eleitorado.

Também foram registrados 1.430.496 votos em branco e 2.723.305 votos nulos.

Os dados indicam uma participação expressiva em números absolutos, acompanhada de uma parcela relevante de eleitores que não compareceu. A abstenção, entretanto, não pode ser interpretada automaticamente como rejeição aos candidatos ou às instituições. Para compreender suas causas, seriam necessárias pesquisas específicas sobre as motivações dos eleitores ausentes.

A democracia representativa depende tanto da realização de eleições regulares quanto da existência de condições para que os cidadãos participem, tenham acesso à informação e possam acompanhar as decisões dos representantes eleitos.

Por isso, a análise dos resultados não deve se limitar à votação dos vencedores. O comparecimento, a abstenção, os votos brancos e nulos também compõem o retrato estatístico do processo eleitoral.


Justiça Eleitoral: transparência, fiscalização e segurança jurídica


A legitimidade de uma eleição depende não apenas da apuração correta dos votos, mas também da garantia de condições adequadas para que os cidadãos possam exercer seu direito de participação, da transparência dos procedimentos e da existência de mecanismos institucionais para examinar eventuais irregularidades.

O segundo turno das eleições presidenciais de 2026 trouxe um episódio excepcional que colocou esses princípios em evidência. Problemas no transporte público em diferentes cidades e fortes chuvas em regiões do país motivaram pedidos de ampliação do horário de votação. As campanhas de Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro recorreram à Justiça Eleitoral com argumentos relacionados, respectivamente, às dificuldades de transporte e às condições climáticas.

Na tarde de 25 de outubro, o ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou a prorrogação do horário de votação até as 19h. Diante das dificuldades de aplicação da medida em seções que já haviam encerrado os trabalhos, a orientação foi posteriormente delimitada: a votação deveria continuar apenas nos locais em que ainda não havia sido encerrada. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) informou que retomaria o recebimento dos boletins de urna e a totalização dos votos após as 19h. A contagem havia sido temporariamente interrompida às 17h06, quando 1.225 das 499.248 seções eleitorais tinham sido totalizadas. 

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2026-10/tse-secoes-eleitorais-ainda-abertas-devem-manter-votacao-ate-19h

A execução da medida gerou dificuldades práticas. Segundo relatos publicados pela Agência Brasil, parte dos eleitores encontrou seções já fechadas, enquanto mesários e equipes locais receberam orientações em momentos diferentes. A situação provocou frustração entre cidadãos que esperavam conseguir votar durante o período adicional. Esses episódios evidenciam os desafios de implementar uma decisão judicial de alcance nacional quando o procedimento eleitoral já está em fase de encerramento. 

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2026-10/prorrogacao-da-votacao-teve-baixa-procura-e-frustracao-de-eleitores

No balanço do segundo turno, o presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, destacou o caráter inédito da prorrogação e as dificuldades técnicas e operacionais provocadas pela decisão tomada próximo ao horário previsto para o encerramento da votação. O tribunal também informou que milhares de urnas já haviam sido encerradas, o que impossibilitava sua reabertura. Esse contexto torna relevante examinar não apenas o fundamento jurídico da medida, mas também a comunicação entre as instituições, a uniformidade das orientações e os procedimentos adotados para preservar o direito ao voto e a integridade dos registros eleitorais.

Fonte:  https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2026/Outubro/presidente-do-tse-anuncia-reeleicao-de-lula-e-faz-balanco-do-2o-turno-das-eleicoes-2026

O episódio não deve ser analisado a partir de conclusões antecipadas. A existência de dificuldades operacionais, por si só, não demonstra que o resultado tenha sido alterado ou que a eleição seja inválida. Da mesma forma, a regularidade da totalização dos votos não elimina a necessidade de esclarecer eventuais falhas de acesso, comunicação e execução das decisões judiciais. Para avaliar possíveis consequências, é necessário considerar registros oficiais, documentos processuais, dados sobre as ocorrências e eventuais decisões posteriores das autoridades competentes.

A transparência eleitoral exige que esses questionamentos possam ser examinados com base em evidências, respeitando o devido processo legal e distinguindo fatos comprovados de alegações políticas. A Justiça Eleitoral tem a responsabilidade de organizar e fiscalizar o processo, assegurar a aplicação das normas e oferecer informações que permitam à sociedade acompanhar e conferir os resultados.

Em uma democracia, a confiança nas eleições não depende da ausência absoluta de problemas, mas da capacidade das instituições de agir com clareza, coerência, responsabilidade e respeito às garantias legais. O episódio de 2026 reforça a importância de protocolos previamente definidos para situações excepcionais, de comunicação pública tempestiva e de procedimentos que conciliem decisões judiciais urgentes com a segurança jurídica e a igualdade de condições para o exercício do voto.

Fontes: Tribunal Superior Eleitoral (TSE) — Balanço do segundo turno das Eleições 2026; Agência Brasil — Orientação para manter abertas até as 19h as seções que ainda funcionavam; Agência Brasil — Relatos sobre a prorrogação e a frustração de eleitores.


O que os números revelam sobre o cenário político brasileiro?


A eleição de 2026 oferece três constatações relevantes.

A primeira é o estabelecimento de um recorde histórico de votação absoluta, com Lula superando a marca que ele próprio havia alcançado em 2022.

A segunda é a permanência de uma competição política intensa. A diferença entre os candidatos, embora suficiente para definir o resultado conforme as regras eleitorais, não elimina a expressiva presença do campo político representado pela candidatura derrotada.

A terceira é que os resultados eleitorais, por si só, não explicam integralmente o comportamento da sociedade. Para compreender as transformações políticas entre 2022 e 2026, é necessário considerar outros elementos, como pesquisas de opinião, distribuição regional dos votos, condições socioeconômicas e avaliações sobre as políticas públicas.

A votação obtida por cada candidato é um dado objetivo. Já as interpretações sobre as razões da escolha dos eleitores exigem investigação adicional, evitando conclusões que extrapolem as informações disponíveis.


Democracia para além do resultado das urnas


O resultado de 2026 confirma a escolha majoritária dos votos válidos por Lula e estabelece um novo recorde de votação presidencial no Brasil. Ao mesmo tempo, revela a existência de uma oposição com apoio eleitoral expressivo e a continuidade de uma disputa política marcada por diferenças significativas de visão sobre o país.

A democracia, porém, não se encerra com a proclamação do resultado. Sua qualidade depende também da atuação das instituições, da fiscalização do poder público, da liberdade de expressão, da participação cidadã e do respeito às regras constitucionais.

Ao governo eleito cabe exercer o mandato e responder às demandas da população. À oposição cabe fiscalizar, formular alternativas e participar do debate público. Aos cidadãos cabe acompanhar as decisões, buscar informações confiáveis e avaliar os resultados das políticas adotadas.

O recorde de votos é um marco estatístico; a eleição é uma decisão democrática; e a qualidade da vida pública depende da participação contínua da sociedade.

Compreender esses três aspectos permite analisar o cenário político brasileiro de maneira mais objetiva, sem confundir o resultado eleitoral com uma representação uniforme das opiniões de toda a população.

A escolha das urnas define quem recebe o mandato para governar. O fortalecimento da democracia depende, por sua vez, da capacidade coletiva de transformar a competição política em responsabilidade pública, transparência institucional e respeito à pluralidade de ideias.

Fontes para consulta:


05 outubro 2026

De 2022 a 2026: o que os números revelam sobre a disputa presidencial brasileira

 

Análise comparativa entre o segundo turno de 2022 e o primeiro turno de 2026 aponta redução da vantagem de Lula e avanço do campo bolsonarista, em um cenário marcado por maior abstenção e fragmentação eleitoral



A eleição presidencial de 2026 produziu, no primeiro turno, uma configuração eleitoral distinta daquela observada no segundo turno de 2022. Quatro anos depois de uma disputa decidida por margem estreita entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PL), os resultados agora colocam Flávio Bolsonaro (PL) na primeira colocação, com 56.104.503 votos (47,03% dos válidos), e Lula em segundo, com 53.879.538 votos (45,16%).

A diferença entre os dois candidatos foi de 2.224.965 votos, ou 1,87 ponto percentual. O resultado levou ambos ao segundo turno, marcado para 25 de outubro. Os números oficiais foram divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral após a conclusão da totalização.

A comparação com 2022, entretanto, exige uma ressalva metodológica: naquele ano, Lula e Jair Bolsonaro disputaram diretamente o segundo turno, enquanto em 2026 Lula e Flávio Bolsonaro chegam ao segundo turno depois de uma primeira rodada com outros 11 candidatos. Ainda assim, a análise dos dados permite observar mudanças relevantes na dimensão do eleitorado, participação, votação nominal e distribuição relativa dos votos.


Eleitorado maior, participação proporcionalmente menor

O eleitorado apto passou de 156.454.011 eleitores em 2022 para 158.745.502 em 2026, crescimento de aproximadamente 2,29 milhões de eleitores, ou 1,47%.

Apesar da expansão do eleitorado, o comparecimento às urnas aumentou em proporção menor. Em 2022, no segundo turno, foram registrados 124.252.796 comparecimentos, enquanto em 2026 o primeiro turno registrou 125.275.835.

Em termos absolutos, portanto, houve aproximadamente 1,02 milhão de eleitores a mais nas urnas. Entretanto, proporcionalmente, a participação caiu de 79,41% para 78,92%, uma redução de 0,49 ponto percentual.

Consequentemente, a taxa de abstenção passou de aproximadamente 20,59% para 21,08%, segundo os números apresentados para os dois pleitos.

O dado é politicamente relevante, mas não permite concluir, isoladamente, que a abstenção tenha beneficiado determinado candidato. A abstenção é um comportamento eleitoral agregado e pode resultar de fatores diversos, como desmobilização, dificuldades de deslocamento, características demográficas e conjunturais ou decisão deliberada de não votar.


Lula: queda na votação nominal e na participação entre os válidos

Em 2022, Lula terminou o segundo turno com 60.345.999 votos, equivalentes a 50,90% dos votos válidos.

Em 2026, no primeiro turno, o presidente recebeu 53.879.538 votos, correspondentes a 45,16% dos votos válidos.

A diferença nominal é de:

−6.466.461 votos

Em termos proporcionais, a votação de Lula caiu aproximadamente 10,72% em relação ao número obtido no segundo turno de 2022.

Sua participação percentual entre os votos válidos também recuou de 50,90% para 45,16%, uma redução de 5,74 pontos percentuais.

Esse movimento, contudo, precisa ser interpretado com cautela. O segundo turno de 2022 era uma disputa binária entre dois candidatos. Já o primeiro turno de 2026 distribuiu votos entre 13 candidaturas presidenciais, o que naturalmente amplia a fragmentação do eleitorado.

Assim, a redução percentual de Lula não pode ser atribuída exclusivamente a uma perda de apoio. Parte dela decorre da própria estrutura competitiva do primeiro turno.


O campo bolsonarista: Flávio supera a votação de Jair Bolsonaro no primeiro turno de 2022

A comparação do outro polo político apresenta uma característica particularmente relevante.

Jair Bolsonaro recebeu 58.206.354 votos no segundo turno de 2022. Em 2026, Flávio Bolsonaro alcançou 56.104.503 votos no primeiro turno.

A diferença nominal é de 2.101.851 votos a menos para Flávio.

Entretanto, a comparação precisa considerar que são candidatos diferentes e que os resultados pertencem a turnos distintos.

Ainda assim, há um dado politicamente significativo: Flávio Bolsonaro conseguiu alcançar 47,03% dos votos válidos já no primeiro turno de 2026, enquanto Jair Bolsonaro havia obtido 49,10% somente no segundo turno de 2022.

Isso indica que, no estágio atual da eleição de 2026, o candidato do PL conseguiu concentrar uma parcela muito expressiva do eleitorado que se identifica com o campo político associado ao bolsonarismo.

Não é metodologicamente adequado concluir, apenas a partir desses números, que os 56,1 milhões de votos de Flávio representam integralmente a transferência do eleitorado de Jair Bolsonaro. O voto é individual e não pode ser presumido como hereditário ou automaticamente transferível entre candidatos.

O que os dados demonstram objetivamente é que o candidato do PL terminou o primeiro turno à frente de Lula e com uma votação superior àquela obtida por Jair Bolsonaro no primeiro turno de 2022, quando Bolsonaro havia registrado 51.072.345 votos.


A principal mudança está na distância entre os dois polos

Talvez o indicador mais relevante da comparação seja a distância entre os dois principais candidatos.

No segundo turno de 2022, Lula venceu Bolsonaro por:

2.139.645 votos

A diferença correspondia a 1,80 ponto percentual entre os votos válidos.

Em 2026, Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno à frente de Lula por:

2.224.965 votos

A vantagem corresponde a 1,87 ponto percentual.

Em termos estritamente numéricos, portanto, a distância entre os dois principais polos permaneceu bastante próxima da observada quatro anos antes.

A diferença é que o sentido da vantagem se inverteu.

Em 2022:

Lula 50,90% × Bolsonaro 49,10%

Em 2026:

Flávio Bolsonaro 47,03% × Lula 45,16%

A vantagem de 2026, entretanto, não representa uma maioria absoluta. Somados, os dois candidatos concentram 92,19% dos votos válidos, deixando aproximadamente 7,81% para as demais candidaturas. O TSE registrou 119.300.788 votos válidos no primeiro turno de 2026.


O papel da fragmentação no primeiro turno de 2026

A estrutura da votação de 2026 é importante para compreender o resultado.

Além de Flávio Bolsonaro e Lula, 11 candidatos participaram da disputa presidencial. Entre eles, Augusto Cury recebeu 3.448.569 votos (2,89%), Renan Santos 2.675.887 (2,24%) e Ronaldo Caiado 2.605.148 (2,18%). Os demais candidatos tiveram percentuais inferiores a 0,3%.

Isso significa que uma parcela do eleitorado que em 2022 só precisou escolher entre dois nomes, em 2026 teve uma oferta eleitoral significativamente maior.

Consequentemente, não é possível transportar mecanicamente os percentuais de um segundo turno para um primeiro turno.

O indicador mais adequado para avaliar a força relativa dos candidatos é observar, simultaneamente, o número absoluto de votos, o percentual sobre os votos válidos e a diferença para o adversário.

Sob essa perspectiva, o resultado de 2026 mostra uma disputa extremamente concentrada nos dois primeiros colocados, mas ainda aberta quanto à composição final do eleitorado no segundo turno.


Votos brancos e nulos também apresentam mudanças

Outro elemento relevante é o comportamento dos votos que não foram destinados a candidaturas.

Em 2026, foram registrados 2.300.798 votos em branco e 3.674.249 votos nulos, segundo a totalização divulgada.

No segundo turno de 2022, foram contabilizados 1.769.678 votos em branco e 3.930.765 votos nulos.

O número de votos brancos aumentou em aproximadamente 531 mil, enquanto os votos nulos diminuíram em aproximadamente 257 mil.

Mais uma vez, porém, esses movimentos não permitem identificar automaticamente uma preferência política. Branco e nulo constituem categorias distintas do voto válido e podem decorrer de comportamentos eleitorais heterogêneos.


O que mudou entre 2022 e 2026?

Considerando os indicadores disponíveis, é possível sintetizar a evolução em cinco pontos:

1. O eleitorado brasileiro cresceu.
O número de eleitores aptos aumentou aproximadamente 1,47%.

2. A participação absoluta cresceu, mas a participação proporcional caiu.
Mais eleitores compareceram em números absolutos, mas a taxa de comparecimento recuou 0,49 ponto percentual.

3. Lula perdeu votação nominal em relação ao segundo turno de 2022.
A redução foi de aproximadamente 6,47 milhões de votos, embora a comparação seja afetada pela diferença entre primeiro e segundo turno.

4. O candidato do PL chegou ao segundo turno em primeiro lugar.
Flávio Bolsonaro obteve 47,03% dos votos válidos e superou Lula por 1,87 ponto percentual.

5. A polarização permanece elevada.
Flávio Bolsonaro e Lula concentraram juntos 92,19% dos votos válidos do primeiro turno de 2026, enquanto os demais candidatos dividiram os 7,81% restantes.


Uma eleição ainda sem vencedor definido

Do ponto de vista da ciência política eleitoral, o dado mais importante do primeiro turno de 2026 não é simplesmente a liderança de Flávio Bolsonaro, mas a proximidade entre os dois candidatos classificados para a segunda rodada.

A diferença de 1,87 ponto percentual é suficientemente pequena para impedir qualquer interpretação de vitória antecipada.

Além disso, o segundo turno modifica estruturalmente o ambiente eleitoral. Os votos destinados às candidaturas eliminadas deixam de competir entre si e passam a constituir o principal campo de disputa dos dois candidatos remanescentes. Somam-se a isso a possibilidade de realinhamentos partidários, novas alianças, mudanças na estratégia de campanha e alterações no comportamento dos eleitores que não votaram nos dois primeiros colocados.

Portanto, o primeiro turno de 2026 demonstra uma inversão da liderança observada no segundo turno de 2022, mas não estabelece, por si só, uma tendência determinística para a segunda votação.

A leitura mais objetiva dos dados é que o país chega ao segundo turno de 2026 com dois polos eleitorais altamente competitivos, diferença inferior a dois pontos percentuais e uma parcela minoritária, porém numericamente relevante, de votos distribuídos entre outras candidaturas.

Em comparação com 2022, o cenário revela uma mudança importante na posição relativa dos dois principais campos políticos: naquele pleito, Lula terminou vencedor por margem estreita; em 2026, o candidato do PL termina o primeiro turno à frente por margem igualmente estreita.

A definição do próximo presidente dependerá, portanto, da capacidade de cada candidatura de incorporar os votos das forças eliminadas, mobilizar eleitores que não compareceram às urnas e ampliar sua capacidade de conversão de apoio eleitoral em votos válidos no segundo turno.

Em termos estatísticos, a fotografia de 2026 é de vantagem para Flávio Bolsonaro; em termos eleitorais, a disputa permanece aberta.


Com informações oficiais do Tribunal Superior Eleitoral

10 setembro 2026

A Inteligência Artificial democratizou as ideias. Mas quem faz o "aperfeiçoamento" delas?

 



Vivemos um momento de transição fascinante na comunicação contemporânea. Com o advento das ferramentas de Inteligência Artificial generativa, a barreira de entrada para a criação de conteúdo foi drasticamente reduzida. Hoje, muitos gestores e empresários conseguem estruturar planos robustos, redigir textos e até conceber identidades visuais apenas dominando a engenharia de prompts.

Por muito tempo, acreditou-se que não existia empresa de sucesso sem uma agência de publicidade estruturada por trás. Hoje, a realidade nos mostra que existem, sim, empresas sem agências. Mas será que elas conseguem operar sem o olhar clínico de um profissional da comunicação?

A resposta que tenho encontrado no meu dia a dia e nas minhas imersões profissionais é: não.

O que acontece é que o escopo mudou. O desafio atual de grande parte dos clientes não é mais a "ideação". A IA resolve isso a um custo baixo. O verdadeiro desafio encontra-se no que chamo de "o último quilômetro da execução técnica". É o cliente que gera uma arte incrível na IA, mas esbarra na impossibilidade técnica de vetorizar essa marca para uso profissional. É a arte finalização de um material promocional, como uma estampa, ou o fechamento de arquivos complexos para a impressão gráfica. A IA imagina, mas é a mão humana e técnica que tangibiliza.

Além da técnica, há o fator mais crítico de todos: o resultado financeiro.

Uma agência de comunicação (mesmo as mais enxutas e modernas) carrega consigo uma estrutura que vai muito além de softwares e bancos de imagens. Carrega a necessidade de estudo constante, capacitação técnica, legalidade e inteligência de mercado. Tudo isso tem um custo. E o cliente moderno, com total razão, exige que esse investimento traga retorno imediato. Ele precisa de audiência, engajamento, mas acima de tudo: vendas.

Essa é a grande balança do mercado atual. O valor de um profissional de comunicação hoje não é medido apenas por sua capacidade de criar, mas por sua habilidade de ser útil e eficiente.

Meu foco, como consultor e profissional de publicidade, tem sido compreender profundamente esse novo cenário. Não se trata de competir com a Inteligência Artificial, mas de orquestrá-la. O objetivo é oferecer uma assessoria que entenda o contexto real de cada negócio, ajustando as expectativas e garantindo que o serviço prestado atinja o coração do problema.

Quando um empresário vê o preço de um serviço de marketing como um "gasto", é porque o valor estratégico não ficou claro ou o resultado final não se pagou. O futuro da nossa profissão é garantir que todo movimento comunicacional seja desenhado para ser um investimento a longo prazo, unindo a velocidade das novas tecnologias com a indispensável precisão da execução humana.

22 maio 2026

O fim do minimalismo ou genialidade efêmera? O que o "Discomorphism" do Spotify nos ensina sobre Branding.

 


Maio de 2026 ficará marcado como o mês em que o verde minimalista deu lugar ao brilho das pistas de dança. Em comemoração aos seus 20 anos, o Spotify lançou a campanha "Spotify 20: Your Party of the Year(s)" e tomou uma decisão ousada: alterou seu intocável logotipo para uma versão espelhada, texturizada e em 3D, apelidada pela comunidade de design como a estética do globo de discoteca.

Como estrategistas de marca, o que podemos aprender com o barulho gerado nos dias 14 e 15 de maio?

  • O Poder do "Branding Efêmero": O Spotify já confirmou que a logo original retorna na semana seguinte. Essa é a magia da escassez. Alterar o ativo mais valioso de uma marca (sua logo) de forma temporária gera um pico de buzz gigantesco sem comprometer o reconhecimento a longo prazo.

  • Quebra de Padrão Visual (Discomorphism): Vivemos a era do Flat Design e do minimalismo extremo. Quando o Spotify apresentou uma logo que dividiu opiniões — criticada por uns como "escura" ou "com cara de IA", e aclamada por outros pela ousadia —, a marca assumiu o controle da narrativa. Eles não queriam ser unânimes; queriam ser comentados.

  • O Efeito Manada B2B: O sucesso de uma ação de PR pode ser medido por quem pega carona nela. Quando gigantes como KitKat, Notion, Solana e Uniswap surfam na mesma onda nas redes sociais, o Spotify deixa de ser apenas uma plataforma e passa a ditar a cultura da internet naquele momento.


Imagem gerada com o Gemini
Imagem gerado pelo Gemini

Aqui na Solaire Comunicação & Marketing, também entrei na trend para testar a aderência visual da minha própria marca a essa tendência (como vocês podem ver na arte que ilustra este post). A conclusão? Marcas fortes aguentam experimentações estéticas.

A lição que fica é clara: ter consistência de marca não significa ser engessado. Quando a ocasião exige uma "festa", vista sua marca para ela.