“Há algo de podre no reino da Dinamarca.”
A frase, repetida à exaustão como metáfora da política contemporânea, costuma ser lida como denúncia moral ou corrupção institucional. No entanto, há uma camada menos óbvia — e talvez mais atual — que atravessa toda a tragédia de Hamlet, de William Shakespeare: a crise da comunicação e da validação da verdade.
No centro da obra não está apenas um príncipe indeciso, mas um sujeito que tenta confirmar a realidade em um sistema onde o discurso oficial funciona como cortina para o crime. Hamlet vive o dilema clássico de quem percebe que algo está errado, mas não encontra respaldo institucional para sustentar essa percepção.
A metafísica como furo de reportagem
A leitura tradicional costuma reduzir Hamlet à hesitação psicológica. Sob a ótica da comunicação, porém, o que se revela é um choque entre regimes de verdade. O Fantasma do velho rei não é apenas um artifício sobrenatural: ele opera como uma fonte — clandestina, marginal e altamente sensível — que revela um segredo de Estado.
Essa comunicação é transgressora porque rompe fronteiras: entre vida e morte, entre o privado e o político, entre o indizível e o narrável. Cláudio, como figura do poder, representa a comunicação institucionalizada, aquela que organiza discursos, controla versões e administra silêncios.
O dilema de Hamlet é profundamente moderno: como confiar na experiência vivida quando ela confronta a lógica do sistema? O príncipe não teme o Fantasma; teme o isolamento que a verdade produz. É a solidão de quem tem o “furo” nas mãos, mas não encontra redação disposta a publicá-lo.
A Ratoeira: quando a imagem força a verdade
A resposta de Hamlet à incerteza não é o confronto direto, mas a mediação simbólica. A encenação da peça dentro da peça — a famosa Ratoeira — funciona como um experimento comunicacional sofisticado. Se a revelação do Fantasma pertence ao campo do metafísico, o teatro é a tentativa de produzir evidência pública.
Hamlet compreende algo essencial: no jogo do poder, a verdade só se materializa quando é exposta diante do olhar coletivo. Ao reproduzir o assassinato do pai, ele não busca convencer pela retórica, mas observar a reação. O rosto de Cláudio, seu desconforto, o pedido abrupto por “luz” tornam-se provas não-verbais incontestáveis.
É o momento em que a imagem vence o discurso oficial. A narrativa ficcional obriga a realidade a se denunciar. Um ensinamento precioso para a era das mídias visuais e das estratégias de comunicação contemporâneas.
Ser ou não ser: a política da ação
O célebre monólogo “Ser ou não ser” costuma ser interpretado como flerte com a morte. Sob uma leitura comunicacional, ele se revela uma reflexão sobre agência e responsabilidade.
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Ser é agir, assumir o risco da verdade e romper com o sistema, mesmo que isso custe estabilidade, afeto ou futuro.
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Não ser é a escolha pela autopreservação silenciosa, pela adaptação estratégica à engrenagem corrompida.
Hamlet hesita porque compreende o preço do “Ser”. Agir implica destruir não apenas o inimigo, mas também as possibilidades de uma vida ordinária, construída no afeto e na continuidade.
O triunfo gótico e o humanismo interrompido
O desfecho da tragédia é tudo menos redentor. Não há utopia, não há recomposição do tecido social. O amor por Ofélia — símbolo de uma existência baseada na construção e no cuidado — é esmagado pelo peso da vingança e da honra.
A justiça se realiza apenas no limite da morte. Hamlet morre íntegro, mas essa integridade cobra o sacrifício do desenvolvimento humano que seu intelecto prometia. É um triunfo amargo, gótico, profundamente anticlimático.
Por que Hamlet importa hoje?
Em tempos de “pós-verdade”, Hamlet nos lembra que comunicação não é simples circulação de dados. É um ato político, ético e, muitas vezes, solitário. Validar a experiência vivida, confrontar narrativas oficiais e sustentar a verdade quando ela desestabiliza estruturas é um gesto de coragem.
A Dinamarca de Shakespeare continua entre nós — agora mediada por telas, algoritmos e discursos estratégicos. Resta ao leitor a pergunta inevitável: diante da próxima verdade incômoda, você escolherá o Ser que age ou o Não Ser que se protege no conforto do silêncio?







