Agenda Solaire

05 outubro 2026

De 2022 a 2026: o que os números revelam sobre a disputa presidencial brasileira

 

Análise comparativa entre o segundo turno de 2022 e o primeiro turno de 2026 aponta redução da vantagem de Lula e avanço do campo bolsonarista, em um cenário marcado por maior abstenção e fragmentação eleitoral



A eleição presidencial de 2026 produziu, no primeiro turno, uma configuração eleitoral distinta daquela observada no segundo turno de 2022. Quatro anos depois de uma disputa decidida por margem estreita entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PL), os resultados agora colocam Flávio Bolsonaro (PL) na primeira colocação, com 56.104.503 votos (47,03% dos válidos), e Lula em segundo, com 53.879.538 votos (45,16%).

A diferença entre os dois candidatos foi de 2.224.965 votos, ou 1,87 ponto percentual. O resultado levou ambos ao segundo turno, marcado para 25 de outubro. Os números oficiais foram divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral após a conclusão da totalização.

A comparação com 2022, entretanto, exige uma ressalva metodológica: naquele ano, Lula e Jair Bolsonaro disputaram diretamente o segundo turno, enquanto em 2026 Lula e Flávio Bolsonaro chegam ao segundo turno depois de uma primeira rodada com outros 11 candidatos. Ainda assim, a análise dos dados permite observar mudanças relevantes na dimensão do eleitorado, participação, votação nominal e distribuição relativa dos votos.


Eleitorado maior, participação proporcionalmente menor

O eleitorado apto passou de 156.454.011 eleitores em 2022 para 158.745.502 em 2026, crescimento de aproximadamente 2,29 milhões de eleitores, ou 1,47%.

Apesar da expansão do eleitorado, o comparecimento às urnas aumentou em proporção menor. Em 2022, no segundo turno, foram registrados 124.252.796 comparecimentos, enquanto em 2026 o primeiro turno registrou 125.275.835.

Em termos absolutos, portanto, houve aproximadamente 1,02 milhão de eleitores a mais nas urnas. Entretanto, proporcionalmente, a participação caiu de 79,41% para 78,92%, uma redução de 0,49 ponto percentual.

Consequentemente, a taxa de abstenção passou de aproximadamente 20,59% para 21,08%, segundo os números apresentados para os dois pleitos.

O dado é politicamente relevante, mas não permite concluir, isoladamente, que a abstenção tenha beneficiado determinado candidato. A abstenção é um comportamento eleitoral agregado e pode resultar de fatores diversos, como desmobilização, dificuldades de deslocamento, características demográficas e conjunturais ou decisão deliberada de não votar.


Lula: queda na votação nominal e na participação entre os válidos

Em 2022, Lula terminou o segundo turno com 60.345.999 votos, equivalentes a 50,90% dos votos válidos.

Em 2026, no primeiro turno, o presidente recebeu 53.879.538 votos, correspondentes a 45,16% dos votos válidos.

A diferença nominal é de:

−6.466.461 votos

Em termos proporcionais, a votação de Lula caiu aproximadamente 10,72% em relação ao número obtido no segundo turno de 2022.

Sua participação percentual entre os votos válidos também recuou de 50,90% para 45,16%, uma redução de 5,74 pontos percentuais.

Esse movimento, contudo, precisa ser interpretado com cautela. O segundo turno de 2022 era uma disputa binária entre dois candidatos. Já o primeiro turno de 2026 distribuiu votos entre 13 candidaturas presidenciais, o que naturalmente amplia a fragmentação do eleitorado.

Assim, a redução percentual de Lula não pode ser atribuída exclusivamente a uma perda de apoio. Parte dela decorre da própria estrutura competitiva do primeiro turno.


O campo bolsonarista: Flávio supera a votação de Jair Bolsonaro no primeiro turno de 2022

A comparação do outro polo político apresenta uma característica particularmente relevante.

Jair Bolsonaro recebeu 58.206.354 votos no segundo turno de 2022. Em 2026, Flávio Bolsonaro alcançou 56.104.503 votos no primeiro turno.

A diferença nominal é de 2.101.851 votos a menos para Flávio.

Entretanto, a comparação precisa considerar que são candidatos diferentes e que os resultados pertencem a turnos distintos.

Ainda assim, há um dado politicamente significativo: Flávio Bolsonaro conseguiu alcançar 47,03% dos votos válidos já no primeiro turno de 2026, enquanto Jair Bolsonaro havia obtido 49,10% somente no segundo turno de 2022.

Isso indica que, no estágio atual da eleição de 2026, o candidato do PL conseguiu concentrar uma parcela muito expressiva do eleitorado que se identifica com o campo político associado ao bolsonarismo.

Não é metodologicamente adequado concluir, apenas a partir desses números, que os 56,1 milhões de votos de Flávio representam integralmente a transferência do eleitorado de Jair Bolsonaro. O voto é individual e não pode ser presumido como hereditário ou automaticamente transferível entre candidatos.

O que os dados demonstram objetivamente é que o candidato do PL terminou o primeiro turno à frente de Lula e com uma votação superior àquela obtida por Jair Bolsonaro no primeiro turno de 2022, quando Bolsonaro havia registrado 51.072.345 votos.


A principal mudança está na distância entre os dois polos

Talvez o indicador mais relevante da comparação seja a distância entre os dois principais candidatos.

No segundo turno de 2022, Lula venceu Bolsonaro por:

2.139.645 votos

A diferença correspondia a 1,80 ponto percentual entre os votos válidos.

Em 2026, Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno à frente de Lula por:

2.224.965 votos

A vantagem corresponde a 1,87 ponto percentual.

Em termos estritamente numéricos, portanto, a distância entre os dois principais polos permaneceu bastante próxima da observada quatro anos antes.

A diferença é que o sentido da vantagem se inverteu.

Em 2022:

Lula 50,90% × Bolsonaro 49,10%

Em 2026:

Flávio Bolsonaro 47,03% × Lula 45,16%

A vantagem de 2026, entretanto, não representa uma maioria absoluta. Somados, os dois candidatos concentram 92,19% dos votos válidos, deixando aproximadamente 7,81% para as demais candidaturas. O TSE registrou 119.300.788 votos válidos no primeiro turno de 2026.


O papel da fragmentação no primeiro turno de 2026

A estrutura da votação de 2026 é importante para compreender o resultado.

Além de Flávio Bolsonaro e Lula, 11 candidatos participaram da disputa presidencial. Entre eles, Augusto Cury recebeu 3.448.569 votos (2,89%), Renan Santos 2.675.887 (2,24%) e Ronaldo Caiado 2.605.148 (2,18%). Os demais candidatos tiveram percentuais inferiores a 0,3%.

Isso significa que uma parcela do eleitorado que em 2022 só precisou escolher entre dois nomes, em 2026 teve uma oferta eleitoral significativamente maior.

Consequentemente, não é possível transportar mecanicamente os percentuais de um segundo turno para um primeiro turno.

O indicador mais adequado para avaliar a força relativa dos candidatos é observar, simultaneamente, o número absoluto de votos, o percentual sobre os votos válidos e a diferença para o adversário.

Sob essa perspectiva, o resultado de 2026 mostra uma disputa extremamente concentrada nos dois primeiros colocados, mas ainda aberta quanto à composição final do eleitorado no segundo turno.


Votos brancos e nulos também apresentam mudanças

Outro elemento relevante é o comportamento dos votos que não foram destinados a candidaturas.

Em 2026, foram registrados 2.300.798 votos em branco e 3.674.249 votos nulos, segundo a totalização divulgada.

No segundo turno de 2022, foram contabilizados 1.769.678 votos em branco e 3.930.765 votos nulos.

O número de votos brancos aumentou em aproximadamente 531 mil, enquanto os votos nulos diminuíram em aproximadamente 257 mil.

Mais uma vez, porém, esses movimentos não permitem identificar automaticamente uma preferência política. Branco e nulo constituem categorias distintas do voto válido e podem decorrer de comportamentos eleitorais heterogêneos.


O que mudou entre 2022 e 2026?

Considerando os indicadores disponíveis, é possível sintetizar a evolução em cinco pontos:

1. O eleitorado brasileiro cresceu.
O número de eleitores aptos aumentou aproximadamente 1,47%.

2. A participação absoluta cresceu, mas a participação proporcional caiu.
Mais eleitores compareceram em números absolutos, mas a taxa de comparecimento recuou 0,49 ponto percentual.

3. Lula perdeu votação nominal em relação ao segundo turno de 2022.
A redução foi de aproximadamente 6,47 milhões de votos, embora a comparação seja afetada pela diferença entre primeiro e segundo turno.

4. O candidato do PL chegou ao segundo turno em primeiro lugar.
Flávio Bolsonaro obteve 47,03% dos votos válidos e superou Lula por 1,87 ponto percentual.

5. A polarização permanece elevada.
Flávio Bolsonaro e Lula concentraram juntos 92,19% dos votos válidos do primeiro turno de 2026, enquanto os demais candidatos dividiram os 7,81% restantes.


Uma eleição ainda sem vencedor definido

Do ponto de vista da ciência política eleitoral, o dado mais importante do primeiro turno de 2026 não é simplesmente a liderança de Flávio Bolsonaro, mas a proximidade entre os dois candidatos classificados para a segunda rodada.

A diferença de 1,87 ponto percentual é suficientemente pequena para impedir qualquer interpretação de vitória antecipada.

Além disso, o segundo turno modifica estruturalmente o ambiente eleitoral. Os votos destinados às candidaturas eliminadas deixam de competir entre si e passam a constituir o principal campo de disputa dos dois candidatos remanescentes. Somam-se a isso a possibilidade de realinhamentos partidários, novas alianças, mudanças na estratégia de campanha e alterações no comportamento dos eleitores que não votaram nos dois primeiros colocados.

Portanto, o primeiro turno de 2026 demonstra uma inversão da liderança observada no segundo turno de 2022, mas não estabelece, por si só, uma tendência determinística para a segunda votação.

A leitura mais objetiva dos dados é que o país chega ao segundo turno de 2026 com dois polos eleitorais altamente competitivos, diferença inferior a dois pontos percentuais e uma parcela minoritária, porém numericamente relevante, de votos distribuídos entre outras candidaturas.

Em comparação com 2022, o cenário revela uma mudança importante na posição relativa dos dois principais campos políticos: naquele pleito, Lula terminou vencedor por margem estreita; em 2026, o candidato do PL termina o primeiro turno à frente por margem igualmente estreita.

A definição do próximo presidente dependerá, portanto, da capacidade de cada candidatura de incorporar os votos das forças eliminadas, mobilizar eleitores que não compareceram às urnas e ampliar sua capacidade de conversão de apoio eleitoral em votos válidos no segundo turno.

Em termos estatísticos, a fotografia de 2026 é de vantagem para Flávio Bolsonaro; em termos eleitorais, a disputa permanece aberta.


Com informações oficiais do Tribunal Superior Eleitoral